O ZÉ DA ESQUINA
- Vai meu filho! Sai andando... Porque senão vai perder o bonde!!!
É assim que as pessoas falavam com o Zé da Esquina, e de tanto ouvir frases desse tipo, ele desistiu de querer ser feliz...
Agora ele tem uma visão cosmogônica do universo, e a sua felicidade é apenas um detalhe... Nunca vi um homem com tamanha lucidez!
Ele não tem sonhos mirabolantes, nem ideias fantásticas, não deseja dar saltos quânticos para uma dimensão onde os sonhos se realizam e os desejos acontecem... Nada disso. Como eu disse, ele desistiu de querer ser feliz, hoje ele se preocupa apenas em levar para as pessoas aquilo que gosta de fazer, aquilo em que acredita...
E ele faz muitas coisas: toca viola, canta, desenha retratos, se fantasia de palhaço, se endurece como estátua, faz malabares nos faróis... É uma figura! Sua alegria não é o dinheiro, tem dia que volta sem nada pra casa... Ele simplesmente faz o que acha que tem de fazer... E não espera nada do governo.
Outro dia ficou doente, o filho o levou para o hospital. Teve de ser entubado. Quinhentos reais só pra entubar, porque o convênio não cobria. E teve que ser em dinheiro porque ele não tinha cheque caução, só tinha o calção...
Depois de entubado queriam desentubar porque o hospital não tinha o remédio que ele precisava tomar e o filho teve que sair às pressas a procurar...
Graças às burocracias... sem assinar não podia desentubar, e quem ia assinar?
E assim, deu tempo do remédio chegar...
Acabou que ficou bom. Deram alta... Mas o filho não foi buscar.
E o Zé da Esquina estava feliz, parou no balcão só para dizer:
- Muito obrigado!
- Vai meu filho, sai andando!... Porque senão vai perder o bonde!
Marisa
