domingo, 16 de agosto de 2015

CRÔNICA DA VIDA REAL - VIDA SAUDÁVEL

CRÔNICA DA VIDA REAL - VIDA SAUDÁVEL

Recebi ontem uma mensagem de minha irmã que me inspirou a fazer essa crônica.

Era uma apologia à simplicidade, uma sátira às inúmeras mensagens que recebemos diariamente pelo facebook, pelo whatsapp ou por emails dizendo tomate previne isso, cebola cura aquilo, chocolate faz bem, uma profusão de descobertas, etc... Sugerindo que deveríamos comer isso, comer aquilo, não comer isso, não comer aquilo, enfim, mudar nossos hábitos para ter uma vida mais saudável...

Sem entrar no mérito dos benefícios do brócolis, da quantidade de água que devemos beber por dia, no final do texto é que veio a parte mais interessante que tinha o subtítulo:

“SEI MUITO BEM O QUE FAZ BEM OU MAL PARA MINHA SAÚDE.
O prazer, o dormir, a leitura de um bom livro, o viajar, os telejornais, o caminhar, o exercitar o autocontrole, o pedir desculpas, o ir ao cinema, o conversar, o exercitar, o humor, os amigos, o economizar, o sonhar, etc...”

Coisas simples que podemos fazer ou evitar para ter uma vida plena e saudável...

Lendo a mensagem, não resisti, e logo respondi:

QUERIDA IRMÃ,

Sabe que ontem pensei nisso?
Estou de pleno acordo, não é só o que entra por nossa boca que nos torna saudáveis, mas as palavras que saem dela, o modo de vida que levamos, as amizades que cultivamos, a importância que damos às coisas simples!

Fico pensando também que doença se esconde atrás dessa busca paranóica de evitar a morte...

Eu cozinho no microondas, acho super prático, mas me disseram que faz mal. Fui pesquisar na internet, e vi que vasilhas de plástico no microondas soltam uma tal de dioxina que é cancerígena...

Continuei pesquisando no youtube sobre utensílios de cozinha e apareceram vídeos dizendo que panelas revestidas com teflon fazem muito mal à saúde e foram proibidas nos EUA... Nossa! Eu só uso frigideira de teflon...

Comecei a ficar preocupada, e quanto mais pesquisas eu fazia no Google sobre “mal à saúde”, mais medo me dava! Tudo que eu fazia e usava era perigoso!

Alumínio também fazia mal, esmalte era tóxico, acredite, até panela de ferro fazia mal, só pessoas com deficiência de ferro deveriam usá-las, porque senão dava excesso de ferritina no corpo e isso fazia mal...
Sobre panelas de barro não achei contra indicações, mas são difíceis de achar, além do peso que, na hora de lavar deve fazer mal para os braços...

Procurei então qual seria a melhor panela para se usar, e apareceram indicações de umas panelas modernas de cerâmica. Carésimas!!!!! Seiscentos, oitocentos reais um conjunto delas. E avulsas mais caro ainda... Essa faria mal para o meu bolso...

Pensei em assar um peixe na folha de bananeira num forno convencional...
Ou, não seria melhor não fazer comida e comprar pronto?

Logo descobri que quase tudo que se compra pronto ou engorda, ou faz mal. Tem conservantes, aromatizantes, muito sódio, gordura trans, glúten, lactose... Nem as frutas e verduras escapam, a não ser aquelas que têm minhoquinhas e lesminhas... Mas não se iluda, porque estas se não forem BEM lavadas, também fazem mal, dão uma bactéria chamada H.Pilory que dá gastrite e úlcera...

Resolvi fazer jejum, achava que era DETOX, e faria bem... Mas vi no youtube um rapaz nutricionista dizendo que o jejum podia ser prejudicial para algumas pessoas levando à anemia e falta de vitaminas. Caramba!

Foi quando li sua mensagem que você me mandou e concordei plenamente:

“SEI MUITO BEM O QUE FAZ BEM OU MAL PARA MINHA SAÚDE.
O prazer, o dormir, a leitura de um bom livro, o viajar, os telejornais, o caminhar, o exercitar o autocontrole, o pedir desculpas, o ir ao cinema, o conversar, o exercitar, o humor, os amigos, o economizar, o sonhar, etc... Coisas simples que podemos fazer ou evitar para ter uma vida plena e saudável...”

E parei de ficar obcecada por ter uma saúde perfeita, o negócio é aproveitar a vida, que adianta comer tudo do bom e do melhor e só falar merda!? Não é mesmo?

Marisa





quinta-feira, 13 de agosto de 2015

A DESCRIMINALIZAÇÃO DO USO E PORTE DE DROGAS

A DESCRIMINALIZAÇÃO DO USO E PORTE DE DROGAS

No princípio era só um projeto, ainda precisava passar por aprovação, até que os representantes do povo o aprovaram.

A sociedade parecia entorpecida em sua razão, tamanha era a insegurança e medo que a violência gerava.
O governo não se preocupava com o bem estar social por muitas décadas. Na verdade, a ânsia pelo poder era o que comandava seus projetos e ações. A corrupção corria solta apesar de alguns “macacos” terem sido pegos com a mão na cumbuca!

Tudo era minuciosamente orquestrado para manipular o povo e ajudar os políticos a encherem seus bolsos de dinheiro e, para esse fim, qualquer meio seria justificável. Tudo o que precisavam para que o projeto fosse aprovado seria fazer o povo acreditar que as medidas iriam beneficiar a população, conter a escalada do tráfico de drogas e diminuir a violência na sociedade. Para argumentar usavam o exemplo de países que em que já não era crime o porte de drogas para consumo próprio. Omitiam, entretanto que dar o direito de escolha a quem está preparado para escolher é uma coisa, e dar o direito de escolha a quem não tem a mínima condição de pensar por si próprio é como entregar uma arma na mão de uma criança...

O povo não agüentava mais ser o bobo da corte. Recebia ordens dos dois lados: do governo instituído e do poder paralelo. Os chefes dessa máfia, ainda que detidos em presídios de segurança máxima, conseguiam comandar a nação com armas pesadas e um sistema totalitário de concentração de poder, cujas ordens não podiam ser questionadas ou desobedecidas, sob pena de execução sumária com o desaparecimento de corpos. 
Por outro lado, eram respeitados pela comunidade porque faziam a parte social que o governo não fazia. Enquanto os prefeitos sumiam com as verbas das merendas escolares, a máfia do tráfico distribuía cestas básicas às crianças e famílias da periferia.
Enquanto no governo ninguém era fiel a ninguém, pois sempre aparecia alguém que oferecia mais, no submundo o que mais contava era a fidelidade incondicional aos líderes que jamais abandonavam seus fieis seguidores. Pagavam advogados para eles, tratamentos de saúde no exterior, documentos falsos para embarcar, fugir... E ainda que algo falhasse, suas famílias estariam sempre amparadas, usufruíam de um bom seguro de vida vitalício com apólice verbal. Apesar de tudo ser verbalmente contratado para não deixar lastros, tudo era confiável, garantido e comprovado por casos e casos de pessoas que testemunhavam o passado.

Enquanto o governo surrupiava as verbas destinadas à construção de reservatórios de água e deixava a população na mão, o poder paralelo distribuía água por caminhões pipa, seguindo um plano de distribuição perfeito. Sabiam dia e hora em que faltaria água em cada ruela da cidade e avisavam a todos com antecedência. O povo, cansado de protestar e economizar, começou até a colaborar com os furtos noturnos às estações e reservatórios de água estaduais...

A situação foi se agravando com o tempo. As crianças começaram a ser recrutadas pelas organizações criminosas uma vez que eram deixadas a esmo pelas ruas. Eram recrutadas para as mais diversas finalidades. As meninas que não sabiam manusear armas geralmente eram destinadas à prostituição. Na idade de três a quatro anos já serviam para alguma coisa. As mais velhas, às vezes, precisavam ser drogadas para não se rebelarem. Seus pais muitas vezes já se drogavam em casa e isso as impedia de se culparem, afinal, nossos pais são sempre nossos modelos de vida...

Os meninos eram divididos em pequenos e grandes, bobos e saudáveis, gays e futuros líderes. Os pequenos eram destinados a operações criminosas onde possuir um corpo pequeno facilitava as coisas. Aos grandes seria destinado o serviço sujo, eram treinados para serem os futuros “leões de chácara”. Os bobos, mas saudáveis, eram valiosos na cadeia internacional de tráfico de órgãos. Valiam muito dinheiro. Os gays eram distribuídos nas festinhas dos líderes e algumas vezes ficavam cativos por algum deles. Eram conhecidos por sua fidelidade cega. E os futuros líderes eram os carismáticos, aqueles que pareciam já nascer sabendo, tinham o DNA do crime nas veias... Desde crianças eram escolhidos e treinados para desempenharem sua “profissão”. A organização lhes pagava estudos até a faculdade, os capacitava em tudo o que fosse necessário, traquejo social, livre acesso às festas da high society e, muitos deles, através de conchavos eram introduzidos no próprio escalão do governo, em cargos de destaque, e apareciam na TV pedindo apoio para a aprovação do projeto em questão: A DESCRIMINALIZAÇÃO DO USO E PORTE DE DROGAS.

E foi assim que o projeto foi aprovado. Com amplo apoio nacional do povo que pensava: “pior não pode ficar”. O que o povo não sabia era que sempre pode ficar pior. É a lei de Murphy.

Após um ano da aprovação do projeto, o número de jovens viciados aumentou exponencialmente. Muitos desses jovens passaram da maconha para outras drogas mais pesadas porque o “barato” da maconha deixara de ser sedutor. PERIGO- era a coisa mais sedutora que existia. O perigo de se viciar, o perigo de morrer... A droga subia na cabeça da juventude como um rojão. Quem não consumia sofria bullying nas escolas. Era perseguido, humilhado, não recebia convites para as festas e os dedos-duros eram executados à pauladas e chutes pelas gangues das drogas.

Misteriosamente as instituições de polícia e judiciário absolviam esses criminosos que voltavam impunes para seu habitat para perpetuar o caos.

O governo então, já que não podia competir com o poder paralelo que era muito mais forte e organizado, decidiu a ele se aliar. Foi uma rendição tácita. O famoso “vê que cai, deita!” Era visível a força do poder paralelo. Suas armas eram modernas, de grosso calibre, derrubavam helicópteros a longa distância! Tinham drones, desde os mais simples que levavam celulares nos presídios até os mais sofisticados que podiam destruir satélites! Dinheiro era o que não faltava para eles, mas quem desviasse algum era punido com a própria morte! Tudo tinha um destino certo. Não poupavam verbas para capacitar seus membros. Investiam em tecnologia. Enviavam jovens para as melhores universidades do mundo para desenvolver suas habilidades e servirem à organização. E nem precisava de FIES (financiamento estudantil), tudo seria pago em fidelização à organização, futuramente sabiam que seriam recrutados para provarem na prática suas habilidades.

Foi assim que toda a nação caiu num buraco negro inexplicável!

O governo passou a ser o “traficante mor”, “o cabeça” como diziam alguns. Dominava e manipulava o povo através do vício nas drogas. A população desesperada fazia qualquer coisa por um cartão magnético BOLSA-DROGA.  A fome era degradante, mas o vício era ainda mais... Na fome o indivíduo levava um tempo maior para morrer porque ficava resistente a ela. No vício, especialmente quando era o crack, a morte vinha rapidinho. E o governo ficou “crack” em estirpar da nova sociedade os jovens rebeldes que a ela não se adaptavam, ou seja, não queriam se viciar! Só permaneciam vivos os que colaboravam!
O salário deixou de existir. O governo provia o necessário para a sobrevivência e controlava o grau de vício dos cidadãos através de circuitos de TV e câmeras na internet. Existia um limite de vício que não podia ser ultrapassado para aqueles que ainda eram úteis ao governo. Para os demais o vício era incentivado subliminarmente, pois a morte deles pouparia ao governo muitos gastos.

Foi dessa maneira que a sociedade virou um grande rebanho de ovelhas. Carneirinhos obedientes... E viciados. Ninguém mais protestava por nada. Só produziam para obter suas rações de droga. Sabiam que tudo estava dominado e, o que fazer numa situação dessas? Quando quem deveria defender o povo era justamente aquele que se debandou para o lado da bandidagem?

O medo era geral, muitas contas estavam sendo pagas com cabeças cortadas. O livre arbítrio desapareceu. Consciência lúcida era uma ficção. Degradação era a palavra certa que definia aquele momento histórico que futuramente seria batizado como a SEGUNDA IDADE DAS TREVAS.


       Marisa Prado Sampaio

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

O DESERTOR DA VIDA - Crônica

O DESERTOR DA VIDA - Crônica


Quem viveu todos seus dias sem nunca ter pensado sobre a morte?

Não aquela morte utópica, filosófica, mas uma morte concreta em que se imagina o meio pelo qual se decide morrer...
Alguns optam pelo enforcamento, outros por uma arma de fogo... Há aqueles que preferem uma bebida mortífera, há quem se jogue da ponte, do penhasco, do apartamento... Se afogue no mar ou na banheira, não importa...  Há aqueles que se afogam na bebida, nos vícios, destroem a saúde e se matam aos poucos... São infinitas as formas de morrer! Mas há algo em comum a todos suicidas, nenhum deles deseja sofrer... que seja breve o instante da morte! Não podemos demorar, ter tempo de voltar atrás. A morte não tem espaços para o arrependimento.

Orfeu era um suicida que não queria aparecer, só queria desaparecer desapercebidamente... Não queria dar trabalho nem despesas para seus familiares. Não queria ser um estorvo na vida de ninguém.
Estava já com 94 anos... Julgava-se feliz por tudo o que conquistara na vida, realizara muitos sonhos, e sentia que não tinha mais nada a fazer no planeta Terra.
Todos os dias conversava com a Morte, que se fazia de desentendida e não lhe dava ouvidos.
Orfeu tomava muitos remédios para preservar a vida, gastava quase todo o valor de sua aposentadoria comprando comprimidos, eram mais de dez por dia. Alguns em jejum, outros depois do almoço, alguns ao se deitar... Cada dia fica mais difícil saber e controlar o horário dos remédios, quais deveriam ser em jejum, quais com água, leite, etc...
Uma grande tristeza se abateu sobre Orfeu quando sua esposa adoeceu. Agora, além dos seus remédios, ele tinha de controlar os dela cuja memória estava bem pior que a dele. Ela que sempre cuidara dele, com tanto carinho e esmero, agora precisava de cuidados... Por essa Orfeu não esperava e não estava preparado. Isso o desanimava.
Orfeu era preguiçoso, gostava de tudo nas mãos, gostava de dar ordens, de ser servido. Tinha de dar um jeito de se safar da vida, de uma maneira que ninguém percebesse...

Decidiu então morrer de uma maneira omissiva. Simplesmente não tomaria mais nenhum dos remédios que o médico lhe prescrevera. Como tinha problemas de coração, de pressão, acreditou que em menos de um ano morreria e estaria livre das tantas obrigações e tristezas da vida. Queria partir dessa vida antes da esposa, não estava preparado para a solidão, para viver só, tinha verdadeiro horror de viver sozinho... O medo tomava conta de seu ser cada vez que pensava nisso.

Ninguém poderia acusá-lo de covardia, ninguém perceberia que havia se suicidado. Todos chorariam sobre seu corpo e se lembrariam dele como um homem trabalhador, guerreiro, amoroso, sensível, etc...
Todos os dias pegava os comprimidos que sua filha gentilmente separava em saquinhos  e fingia tomá-los, colocava-os na boca, mas não os engolia. Disfarçando tirava-os da boca, jogava na privada e dava descarga... Plano perfeito. Jamais seria descoberto.
Dia após dia, meticulosamente seguia seu plano. Acreditava que em menos de um ano já teria partido dessa vida.
Sabedor de seu triste futuro, procurou deixar tudo em ordem, resolveu problemas que arrastava por décadas, doou o que queria doar, procurou pessoas de quem julgou que sentiria saudades, pediu perdão àqueles a quem julgou ter ofendido, agradeceu àqueles que lhe haviam prestado favores e a quem nunca havia agradecido... Pagou suas contas. Olhou com outros olhos o dia-a-dia enfadonho, que em breve não teria mais... Ficou mais permissivo com os netos, mais condescendente com a esposa que adoecia de uma maneira assustadora...

Nos primeiros dias teve um piripaque, chegou a ir ao Pronto Socorro, agitou toda a família... Pensou até em desistir do plano. Mas quando voltou para a casa e fez uma retrospectiva da vida, voltou a achar que não valia a pena mais fazer tanta hora extra nesse planeta tão deteriorado, onde os homens estão corrompidos, onde não há mais valores, ética, etc...

Ligou a TV e ouviu a notícia do jovem que matou e esquartejou a tia, da roubalheira dos políticos, das crianças abandonadas nas ruas, meninas sendo prostituídas.
Deu o horário, e mais dois comprimidos foram descartados e jogados na privada, ninguém percebeu. Acreditavam que Orfeu ia ao banheiro porque já não conseguia segurar a urina.

Na verdade, não conseguia mesmo, mas não conseguia segurar muitas coisas, já não tinha tempo para fingir afeições, falava o que lhe vinha à cabeça, doesse a quem doesse...

Para passar o tempo mais rápido decidiu escrever um livro de memórias. Contava muitos causos engraçados, queria ser lembrado com alegria... Contava também as dificuldades superadas, a vida sofrida. Queria ser lembrado como alguém que lutou o bom combate, jamais como um desertor da vida...

Após alguns meses sem tomar as medicações sentiu um tremor estranho, a vista turva, as pernas não obedeciam, pensou: Finalmente meu plano está funcionando, falta pouco!

Mas logo depois, trouxeram-lhe um copo de água e a confusão mental desapareceu. Orfeu começou a beber mais água do que o normal, pois quando ia ao banheiro fazia mais xixi e aproveitava para jogar os comprimidos fora.

Com a ingestão de tanto líquido, sentia menos fome, procurava selecionar melhor o que comia. Perguntava a si mesmo o que gostaria de comer como sua última refeição, ia a restaurantes, e nunca se importava com o preço, pois dinheiro era pra gastar e não para deixar a herdeiros que por ele iriam brigar...

Um a um foi realizando seus sonhos, deixou de ser orgulhoso, pedia ajuda quando precisava. Ajudou tantas pessoas na vida, agora chegara a sua vez de ser ajudado!

O tempo foi passando. Três, quatro, cinco, seis meses sem os remédios no corpo... Olhou-se no espelho, sua pele estava viçosa, seu olhar radiante, algo estaria dando errado?

As tremedeiras, as tonturas, o cansaço, todos esses sintomas foram ficando cada vez mais espaçados, e tudo aquilo que o afligia antes agora estava distante... Afinal, o que poderia afligir uma pessoa que está prestes a morrer? Todos os problemas se tornavam pequeninos diante da morte!

Para não ficar ansioso, decidiu não contar mais os dias e as horas, jogou no lixo o relógio bonito que havia ganhado no dia dos pais... O relógio era pra não perder o horário dos remédios, mas que remédios? Tudo ia para o vaso sanitário! Sabia que era hora de almoçar porque tinha fome, sabia que era hora de dormir porque tinha sono, aprendeu a ouvir e respeitar seu corpo.
Vivia cada dia como se fosse o último, e estranhamente ao invés de nostalgia, sentia alegria... Isso não fazia parte do plano! Onde estava a depressão que o acompanhava nos últimos anos? Onde estava o cansaço que o fazia dormir quase o dia todo?  Começou a sentir vontade de andar, de ouvir música, foi até rever um amigo que era compositor...

O amigo quando o viu se espantou. Perguntou-lhe que remédio estava tomando por estar tão bem, rejuvenescido... Isso o deixou encabulado, seu plano estava dando errado! Não acreditava no que estava acontecendo, pois todos lhe diziam obstinadamente que não podia esquecer de tomar os remédios senão poderia morrer!

Assim seguiram-se os dias, Orfeu cada dia mais vibrante com a vida, os sonhos e ideias voltavam a brotar em seu coração como na juventude. Apesar de seu corpo não ter mais aqueles impulsos e arroubos, seu espírito era de um jovem. Tornara-se um homem lúcido, comedido, sensato, com domínio de si mesmo e tolerância e simpatia para com os outros. Usava seu tempo para ser útil a quem estava por perto.

Finalmente, foi no dia do seu aniversário de 95 anos que percebeu: seu plano realmente teve um final imprevisto, a ausência dos remédios, ao invés de matá-lo, o curou. Foi a procura da morte que lhe trouxe a vida e chegou à conclusão de que o plano de Deus nunca falha... Mesmo quando dá errado, dá certo!
E foi pensando isso, distraído e feliz que a morte o encontrou. Atravessando a rua. Morreu atropelado.
Ironias da vida. Atravessando a rua, quem diria que seria assim sua travessia? Do outro lado da avenida ele sorria, não morria, vivia!!!!
Ironias da vida... Não teve tempo para voltar atrás, e a morte não tem espaços para arrependimentos...


 Marisa

terça-feira, 11 de agosto de 2015

AMANTES DO DIREITO



AMANTES DO DIREITO

_Amor...se você me deixar eu  vou apelar !


_Vou ao Superior se necessário for !
Porque afinal... você merece um Recurso Especial !

_Por você , meu amor, eu vou ao Supremo Tribunal,
É meu  direito constitucional o devido processo legal !

_Amorzinho...

Peço clemência, você não pode me condenar,
 e o princípio da inocência? 
E depois, quem alega tem que provar....
_Quero apresentar minha contestação,
Pois não são verdadeiros os fatos alegados!
Não dê ouvidos à oposição.
 No meu coração não existem
terceiros interessados....

_Paixão da minha vida...

Só a nós diz respeito a nossa relação jurídica!

_Olha pra mim...você não vê?
Então tente me escutar,

Eu preciso de uma sustentação oral,
Vou enlouquecer sem você...
Melhor seria me executar !
Podemos fazer um acordo?
Ou  prefere um acórdão do Tribunal?

_O juiz vai tentar a conciliação ,
O que você vai dizer?
Não diga “não”....

_Ah...está tão frio...!
Vem cá vai...
Vamos deixar essa lide pra lá....?

O réu nesse momento

FURTA um beijo da autora


 E o que aconteceu?Quer saber?

_Vai fazer carga no processo “meu”!


 Extinção do processo
Sem julgamento do mérito:

A autora desistiu da ação


_Esse réu....!  É mesmo “ 171”  !!!!


Marisa