Ontem, domingo, final de tarde, eu estava sentada na varanda de meu apartamento... Quando o vento soprou e me chamou para fazer uma caminhada... Como sei que o vento nunca se engana, e sempre nos leva para os lugares onde deveríamos estar, eu fui... Desci como estava, nem um tênis eu coloquei, fui de sandália de plataforma mesmo, porque o vento não espera!
Em questão de minutos, a tarde escureceu... As árvores pareceram não gostar, protestaram balançando seus galhos e atiçando ainda mais aquele vento!
De repente, um raio de luz silencioso brilhou no céu... Será que vai chover?
... as crianças saíram do play ground, os adultos também sumiram, os funcionários do condomínio foram para debaixo da marquise, só restou eu...
Pensei em subir correndo, minha sandália era nova, não queria molhá-la... Tentei cobrir meus cabelos com o moleton e protegê-los dos primeiros pingos...
Mas, me perguntei:
_ Por quê ?
Por que não deixar molhar a sandália? Por que não deixar molhar os cabelos? Por que não deixar que os pingos da chuva molhem minha alma? Talvez ela esteja seca, precisando de água e de vida... A sandália... Eu poderia comprar outra! Os cabelos... Eu poderia lavá-los e secá-los de novo! Minhas roupas... Eu tenho um guarda-roupa cheio delas!
Aliás, não sei pra que tanta roupa! Parece até que sou várias MARISAS... Uma Marisa-executiva, uma Marisa-esportiva-peregrina, uma Marisa-alternativa-criativa-dançarina... Para cada uma delas, uma roupa diferente !!! Isso, sem contar as langeries da Marisa-afrodite ! Mas... para seduzir quem???
Pra que tanta roupa?
Pra que tanto cuidado em não me molhar... Em me proteger?
Do que é que eu estou me protegendo? Dos pingos da chuva?
Pra que foi que esse vento me chamou aqui? Será que ele não se enganou? Provavelmente ele não sabia que iria chover... Senão, não teria me chamado!
_ Marisa! ... O vento NUNCA se engana, lembra-se?
_ Sim, eu me lembro... É verdade, o vento sempre nos leva para os lugares onde estão as lições que devemos aprender, e as pessoas que devemos conhecer...
Deixei que os pingos caíssem sobre mim!
Deixei que meus pés se molhassem e meus cabelos se ensopassem!
Senti frio...
Não ofereci resistência...
Percebi que aquela chuva era AMIGA e eu estava me sentindo sozinha ultimamente...
... quando dei por mim, estava sorrindo, batendo palmas com as mãos, brincando com os pingos que se explodiam no ar!!!!
Os funcionários do condomínio devem ter pensado que o meu caso não tinha cura... Mas, na verdade, eu estava me sentindo curada por aquela “loucura” !
Subi para o apartamento, fui direto para a área de serviço, onde deixei a sandália e minha roupa encharcada...
Tomei uma ducha e deitei na cama, de cabelo molhado e tudo! Estava feliz... Senti a chuva, vivi a chuva, não ofereci resistência, deixei a água e o frio penetrar ... E o milagre é que me sinto AQUECIDA !
Marisa