quarta-feira, 30 de março de 2011

CRÔNICA DA VIDA REAL - MESA DE JANTAR

Outro dia fui almoçar no Livorno com uma amiga. Conversando ela me disse que era uma pena que hoje em dia a instituição da família estivesse se desmantelando... Frustrada, dizia-me que seu filho adolescente já não se sentava à mesa com ela, carregava o prato para o quarto para comer na frente da TV ou do computador. Dizia que hoje em dia as famílias não se reunem mais em volta da mesa...

Quando ela disse essa frase percebi que para ela uma mesa era muito mais que uma mesa... Era um elo de ligação. E que ela se sentia muito sozinha...

Olhei para a minha vida... E procurei a minha mesa. Eu não tinha mesa. E mesmo sem desvalorizar os sentimentos de minha amiga, percebi que para mim uma mesa também não era só uma mesa... E achei muito engraçado!

Enquanto para minha amiga a mesa era um ponto de encontro, para mim a mesa sempre representou um obstáculo, a obrigação de cozinhar, algo que eu nunca gostei de fazer. Um ponto de desencontro comigo mesma.

Quando eu era casada e meu marido chegava em casa perguntando: - Querida o que vai ter de jantar? Eu sentia um frio na espinha, um arrepio que ia até a ponta do dedão do pé... Graças a Deus eu me divorciei e não preciso mais ouvir essa pergunta. Doar a minha mesa de jantar talvez tenha sido uma das mudanças mais significativas de minha vida, e isso me fez ver o mundo de outra maneira... Eu não tenho a obrigação de fazer o que todo mundo faz, nem o que não quero fazer...! O mundo moderno é maravilhoso, tem mil alternativas... Infinitas possibilidades!

Chorei quando meu marido foi embora, mas não derramei uma lágrima ao ver aquela mesa indo embora... A gente sempre leva alguma vantagem em alguma coisa...

Faz trinta anos que eu vivo sem mesa. E vivo muito bem... Me sinto protegida por isso. Me dá segurança não ter uma mesa em casa. Acho que é melhor do que ver todo dia uma mesa grande vazia, ou se sentir sozinha e ficar pensando no tempo em que a mesa estava cheia: de gente, de comida, de amor...

Com certeza eu sei o que minha amiga sente. Eu também me sinto sozinha às vezes, e ninguém está imune a isso, mesmo acompanhado. Mas quando eu me sinto sozinha, eu me chamo no espelho, me olho nos olhos, e me pergunto: Marisa, o que está acontecendo? Por que você está com essa cara? E nada que uma boa conversa comigo mesma não resolva... Eu uso uma mesinha pequenina para estudar, ler, escrever... Como estou fazendo agora... Depois eu passo para o computador... Essa mesinha pra mim,é muito mais importante que uma mesa de jantar... é muito mais que uma mesinha, é uma amiga e companheira... às vezes ela me chama para meditar.

Mas olha, eu gosto de receber amigos... Geralmente um ou dois de cada vez, senão vira oba-oba... A gente conversa, dá risada, já aconteceu de chorar também... Mas depois a gente toma uma cervejinha, senta no chão, ou no sofá... A campainha toca, e como era de se esperar... Tudo acaba em pizza, do jeito que eu gosto!!!!
Marisa – março/2011