O DESERTOR DA
VIDA - Crônica
Quem viveu todos
seus dias sem nunca ter pensado sobre a morte?
Não aquela morte
utópica, filosófica, mas uma morte concreta em que se imagina o meio pelo qual
se decide morrer...
Alguns optam pelo
enforcamento, outros por uma arma de fogo... Há aqueles que preferem uma bebida
mortífera, há quem se jogue da ponte, do penhasco, do apartamento... Se afogue
no mar ou na banheira, não importa... Há aqueles que se afogam na bebida,
nos vícios, destroem a saúde e se matam aos poucos... São infinitas as formas
de morrer! Mas há algo em comum a todos suicidas, nenhum deles deseja sofrer...
que seja breve o instante da morte! Não podemos demorar, ter tempo de voltar
atrás. A morte não tem espaços para o arrependimento.
Orfeu era um suicida
que não queria aparecer, só queria desaparecer desapercebidamente... Não queria
dar trabalho nem despesas para seus familiares. Não queria ser um estorvo na
vida de ninguém.
Estava já com 94
anos... Julgava-se feliz por tudo o que conquistara na vida, realizara muitos
sonhos, e sentia que não tinha mais nada a fazer no planeta Terra.
Todos os dias
conversava com a Morte, que se fazia de desentendida e não lhe dava ouvidos.
Orfeu tomava muitos
remédios para preservar a vida, gastava quase todo o valor de sua aposentadoria
comprando comprimidos, eram mais de dez por dia. Alguns em jejum, outros depois
do almoço, alguns ao se deitar... Cada dia fica mais difícil saber e controlar
o horário dos remédios, quais deveriam ser em jejum, quais com água, leite,
etc...
Uma grande tristeza
se abateu sobre Orfeu quando sua esposa adoeceu. Agora, além dos seus remédios,
ele tinha de controlar os dela cuja memória estava bem pior que a dele. Ela que
sempre cuidara dele, com tanto carinho e esmero, agora precisava de cuidados...
Por essa Orfeu não esperava e não estava preparado. Isso o desanimava.
Orfeu era
preguiçoso, gostava de tudo nas mãos, gostava de dar ordens, de ser servido.
Tinha de dar um jeito de se safar da vida, de uma maneira que ninguém
percebesse...
Decidiu então morrer
de uma maneira omissiva. Simplesmente não tomaria mais nenhum dos remédios que
o médico lhe prescrevera. Como tinha problemas de coração, de pressão,
acreditou que em menos de um ano morreria e estaria livre das tantas obrigações
e tristezas da vida. Queria partir dessa vida antes da esposa, não estava
preparado para a solidão, para viver só, tinha verdadeiro horror de viver
sozinho... O medo tomava conta de seu ser cada vez que pensava nisso.
Ninguém poderia
acusá-lo de covardia, ninguém perceberia que havia se suicidado. Todos
chorariam sobre seu corpo e se lembrariam dele como um homem trabalhador,
guerreiro, amoroso, sensível, etc...
Todos os dias pegava
os comprimidos que sua filha gentilmente separava em saquinhos e fingia
tomá-los, colocava-os na boca, mas não os engolia. Disfarçando tirava-os da
boca, jogava na privada e dava descarga... Plano perfeito. Jamais seria
descoberto.
Dia após dia,
meticulosamente seguia seu plano. Acreditava que em menos de um ano já teria
partido dessa vida.
Sabedor de seu
triste futuro, procurou deixar tudo em ordem, resolveu problemas que arrastava
por décadas, doou o que queria doar, procurou pessoas de quem julgou que
sentiria saudades, pediu perdão àqueles a quem julgou ter ofendido, agradeceu
àqueles que lhe haviam prestado favores e a quem nunca havia agradecido...
Pagou suas contas. Olhou com outros olhos o dia-a-dia enfadonho, que em breve
não teria mais... Ficou mais permissivo com os netos, mais condescendente com a
esposa que adoecia de uma maneira assustadora...
Nos primeiros dias
teve um piripaque, chegou a ir ao Pronto Socorro, agitou toda a família...
Pensou até em desistir do plano. Mas quando voltou para a casa e fez uma
retrospectiva da vida, voltou a achar que não valia a pena mais fazer tanta
hora extra nesse planeta tão deteriorado, onde os homens estão corrompidos,
onde não há mais valores, ética, etc...
Ligou a TV e ouviu a
notícia do jovem que matou e esquartejou a tia, da roubalheira dos políticos,
das crianças abandonadas nas ruas, meninas sendo prostituídas.
Deu o horário, e
mais dois comprimidos foram descartados e jogados na privada, ninguém percebeu.
Acreditavam que Orfeu ia ao banheiro porque já não conseguia segurar a urina.
Na verdade, não
conseguia mesmo, mas não conseguia segurar muitas coisas, já não tinha tempo
para fingir afeições, falava o que lhe vinha à cabeça, doesse a quem doesse...
Para passar o tempo
mais rápido decidiu escrever um livro de memórias. Contava muitos causos
engraçados, queria ser lembrado com alegria... Contava também as dificuldades
superadas, a vida sofrida. Queria ser lembrado como alguém que lutou o bom
combate, jamais como um desertor da vida...
Após alguns meses
sem tomar as medicações sentiu um tremor estranho, a vista turva, as pernas não
obedeciam, pensou: Finalmente meu plano está funcionando, falta pouco!
Mas logo depois,
trouxeram-lhe um copo de água e a confusão mental desapareceu. Orfeu começou a
beber mais água do que o normal, pois quando ia ao banheiro fazia mais xixi e
aproveitava para jogar os comprimidos fora.
Com a ingestão de
tanto líquido, sentia menos fome, procurava selecionar melhor o que comia.
Perguntava a si mesmo o que gostaria de comer como sua última refeição, ia a
restaurantes, e nunca se importava com o preço, pois dinheiro era pra gastar e
não para deixar a herdeiros que por ele iriam brigar...
Um a um foi
realizando seus sonhos, deixou de ser orgulhoso, pedia ajuda quando precisava.
Ajudou tantas pessoas na vida, agora chegara a sua vez de ser ajudado!
O tempo foi
passando. Três, quatro, cinco, seis meses sem os remédios no corpo... Olhou-se
no espelho, sua pele estava viçosa, seu olhar radiante, algo estaria dando
errado?
As tremedeiras, as
tonturas, o cansaço, todos esses sintomas foram ficando cada vez mais
espaçados, e tudo aquilo que o afligia antes agora estava distante... Afinal, o
que poderia afligir uma pessoa que está prestes a morrer? Todos os problemas se
tornavam pequeninos diante da morte!
Para não ficar
ansioso, decidiu não contar mais os dias e as horas, jogou no lixo o relógio
bonito que havia ganhado no dia dos pais... O relógio era pra não perder o
horário dos remédios, mas que remédios? Tudo ia para o vaso sanitário! Sabia
que era hora de almoçar porque tinha fome, sabia que era hora de dormir porque
tinha sono, aprendeu a ouvir e respeitar seu corpo.
Vivia cada dia como
se fosse o último, e estranhamente ao invés de nostalgia, sentia alegria...
Isso não fazia parte do plano! Onde estava a depressão que o acompanhava nos
últimos anos? Onde estava o cansaço que o fazia dormir quase o dia todo?
Começou a sentir vontade de andar, de ouvir música, foi até rever um
amigo que era compositor...
O amigo quando o viu
se espantou. Perguntou-lhe que remédio estava tomando por estar tão bem,
rejuvenescido... Isso o deixou encabulado, seu plano estava dando errado! Não
acreditava no que estava acontecendo, pois todos lhe diziam obstinadamente que
não podia esquecer de tomar os remédios senão poderia morrer!
Assim seguiram-se os
dias, Orfeu cada dia mais vibrante com a vida, os sonhos e ideias voltavam a
brotar em seu coração como na juventude. Apesar de seu corpo não ter mais
aqueles impulsos e arroubos, seu espírito era de um jovem. Tornara-se um homem
lúcido, comedido, sensato, com domínio de si mesmo e tolerância e simpatia para
com os outros. Usava seu tempo para ser útil a quem estava por perto.
Finalmente, foi no
dia do seu aniversário de 95 anos que percebeu: seu plano realmente teve um
final imprevisto, a ausência dos remédios, ao invés de matá-lo, o curou. Foi a
procura da morte que lhe trouxe a vida e chegou à conclusão de que o plano de
Deus nunca falha... Mesmo quando dá errado, dá certo!
E foi pensando isso,
distraído e feliz que a morte o encontrou. Atravessando a rua. Morreu
atropelado.
Ironias da vida.
Atravessando a rua, quem diria que seria assim sua travessia? Do outro lado da
avenida ele sorria, não morria, vivia!!!!
Ironias da vida...
Não teve tempo para voltar atrás, e a morte não tem espaços para
arrependimentos...
Marisa