SOLIDÃO
Não
há no mundo quem nunca tenha travado um duelo com a solidão.
Ser solitário por um dia, alguns dias, um período,
nos pode ser benéfico para entrarmos em contato com nós mesmos. Refletir. Mas a solidão crônica, aquela que entristece
até os ossos, aquela que, como erva daninha, se apodera e avassala a nossa
alma, deve ser combatida, o quanto antes, pois é nossa inimiga.
O primeiro lugar onde ela se instala é nos olhos. Ao
invés de olharmos para o futuro, nos tornamos prisioneiros do passado, olhar
cabisbaixo, a caminho do cadafalso. Condenados num processo que ainda não
terminou, nem vai terminar, mas isso pouco importa, não temos defesa, estamos
condenados à solidão e a solidão é só um nome diferente para a morte:
nos solidarizamos com Kafka, o escritor, perdemos o rumo, deixamos de ter
objetivos. Paranoicamente questionamos a existência, fugimos dos
relacionamentos, da realidade.
A seguir, ela desce pela espinha dorsal, região crucial,
curva nossas costas, com uma agulha invisível nos faz uma punção entre as
vértebras, suga nossas energias, ficamos anestesiados diante da vida.
Totalmente desvitalizados, pessimistas, comodistas e apáticos, nossa imagem se
torna digna de pena... E, no entanto, se prestássemos atenção, veríamos que ela
está rindo... A solidão ri de nós, da figura patética que é um solitário, por
mais atroz que seja a sua dor...
São os nossos pensamentos que abrem a guarda, deixando
que ela vá se instalando. Aos poucos ela domina nossos braços e nossas pernas.
Não conseguimos mais sair de casa, queremos só dormir, esquecer que estamos
sozinhos. Não conseguimos mais abraçar ninguém. Achamos que não há qualquer
utilidade em abraçar as pessoas, pois todas elas vão nos deixar...
Depois de virar o nosso sorriso de cabeça para baixo, ela
nos trava o maxilar, nos tira o paladar, deixamos de ter vontade de comer, nos
alimentar... Ela tenta nos enganar, dizendo que tudo tem seu lado bom, estamos
ficando mais magros, esbeltos... No fundo, ela ri de nós, sabe que está quase
ganhando a batalha.
Em pouco tempo, estamos dependentes dos comprimidos que
ela nos receitou para um mal que ela mesma nos causou! Ela nos dá esperanças de que os remédios vão
funcionar, e que, como num passe de mágica, nunca mais ela nos importunará... Assim,
perdemos todo o controle sobre nós, damos a ela as rédeas do nosso futuro.
Finalmente, ela toma conta de nosso corpo, nossos
órgãos internos, disritmiza nosso coração, produz borboletas em nosso estômago,
morcegos no cérebro, passamos a confundir o dia com a noite, temos insônia,
qualquer barulho nos assusta... Nosso sangue fica sujo, quase preto, nossas
fezes também escurecem, tornam-se duras e se recusam a nos deixar... Só as
fezes se recusam a nos deixar, o resto do mundo já nos deixou.
Nos últimos instantes, já não temos medo da morte,
estamos tão doentes que chegamos a desejá-la e, depois, sabemos que não teremos
ninguém para cuidar de nós, ninguém para trocar nossos lençóis. Então, ela terá
triunfado sobre nós. Estaremos sós.
Assim age a solidão, ela sempre lhe conta um
história trágica. Você acaba acreditando e, no final, você chora, e ela ri !!!!
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