O quarto das tranqueiras ou o quarto da bagunça tem a mesma funcionalidade dos sótãos ou dos porões de antigamente. É um lugar onde guardamos coisas que já passaram, mas para nós não... Ou coisas que não passaram, mas para nós sim...
Psicologicamente falando assumem a função da nossa sombra, tudo aquilo que não queremos ver... nossos segredos cabeludos, a história de nossos ancestrais, nossas fantasias, nossos sonhos, quem fomos, quem deixamos de ser... Quem poderíamos ser...
E não é à toa que a Betânia (minha filha) me deu o apelido de Rainha da Sucata.
O Théo, meu netinho de três anos veio me visitar semana passada e me perguntou:
_ Vovó, aonde dá essa porta? Por que está fechada?
Não preciso falar que a dita cuja era a porta do quarto das tranqueiras, né? No meu apartamento esse quarto minúsculo deveria ser o quarto de uma empregada anã, mas como não tenho empregada, acabou virando aquele quarto perfeito para quando a gente faz a pergunta: _ Aonde eu enfio isso?
Roupa suja para lavar, ferramentas, potinhos vazios, pincéis endurecidos por tinta seca, vasos para flores que não ganho mais, cortes de tecido e máquina de costura que ficam ali me esperando, não sei até quando... cadernos de receitas que nunca experimentei, produtos de limpeza que duram uma eternidade, livros que já li e ainda vou ler, coisas para dar quando eu achar a pessoa certa, a bicicleta e os brinquedos do Théo (antes eram os da Betânia), papéis de presente e muitas sacolinhas plásticas (que agora valem ouro!)... Coisas que se quebraram e precisam de reparo...
Mas o Théo estava intrigado e queria saber por que o quarto tinha duas portas: uma que dava para o hall de entrada, e outra que dava para a área de serviço. O que ele queria saber, na verdade, era por que a porta do hall de entrada estava sempre fechada...
Mas... Como dizer para uma criança de três anos que ainda é totalmente espontânea, que a gente precisa ser o que não se é... preservar a “fachada”, mostrar a organização, a coerência, a limpeza, esconder a bagunça, aquilo que nos confunde, nos desestrutura?!...
No meio da conversa, os olhinhos do Théo brilharam de interesse quando comecei a lhe mostrar minhas preciosas tranqueiras... Quando lhe disse que ali também eu guardava os brinquedos da Betânia (mãe dele) ele me pediu para descrever e falar sobre os brinquedos da Betânia. Saber que sua mãe havia sido criança como ele, e tinha brinquedos como ele era fantástico!
Atualmente minha filha e ele estão passando por um dilema terrível : Onde enfiar os brinquedos do Théo? Ela escondeu os brinquedos do menino e lhe disse que a bruxa havia passado lá e levado os brinquedos porque estavam todos jogados... Mas a malvadeza não foi só essa... Foi representar a bruxa por uma foto minha!!!!!!
Mas, voltando ao quarto das tranqueiras... Não é só uma questão de espaço, é muito mais uma questão de desapego do passado e do futuro.
- Desapego do futuro? Sim, porque “isso” eu vou guardar porque um dia vai servir para alguma coisa! Como se o futuro dependesse das tranqueiras que a gente guarda...
E o interessante é que psicologicamente falando eu acredito que sim: O futuro depende das tranqueiras que a gente guarda: velhas mágoas, recordações lúgubres... assim como das alegrias que tentamos congelar com medo de perder...
Todos nós temos, lá no fundo, com a porta fechada, um quartinho das tranqueiras, onde guardamos as coisas que já passaram, mas para nós não... Ou as coisas que não passaram, mas para nós sim!
Marisa
Fev 2012