A
DESCRIMINALIZAÇÃO DO USO E PORTE DE DROGAS
No princípio era só um projeto, ainda
precisava passar por aprovação, até que os representantes do povo o aprovaram.
A sociedade parecia entorpecida em sua
razão, tamanha era a insegurança e medo que a violência gerava.
O governo não se preocupava com o bem estar
social por muitas décadas. Na verdade, a ânsia pelo poder era o que comandava
seus projetos e ações. A corrupção corria solta apesar de alguns “macacos”
terem sido pegos com a mão na cumbuca!
Tudo era minuciosamente orquestrado para
manipular o povo e ajudar os políticos a encherem seus bolsos de dinheiro e,
para esse fim, qualquer meio seria justificável. Tudo o que precisavam para que
o projeto fosse aprovado seria fazer o povo acreditar que as medidas iriam
beneficiar a população, conter a escalada do tráfico de drogas e diminuir a
violência na sociedade. Para argumentar usavam o exemplo de países que em que
já não era crime o porte de drogas para consumo próprio. Omitiam, entretanto
que dar o direito de escolha a quem está preparado para escolher é uma coisa, e
dar o direito de escolha a quem não tem a mínima condição de pensar por si
próprio é como entregar uma arma na mão de uma criança...
O povo não agüentava mais ser o bobo da
corte. Recebia ordens dos dois lados: do governo instituído e do poder
paralelo. Os chefes dessa máfia, ainda que detidos em presídios de segurança
máxima, conseguiam comandar a nação com armas pesadas e um sistema totalitário
de concentração de poder, cujas ordens não podiam ser questionadas ou
desobedecidas, sob pena de execução sumária com o desaparecimento de corpos.
Por outro lado, eram respeitados pela comunidade porque faziam a parte social que o governo não fazia. Enquanto os prefeitos sumiam com as verbas das merendas escolares, a máfia do tráfico distribuía cestas básicas às crianças e famílias da periferia.
Por outro lado, eram respeitados pela comunidade porque faziam a parte social que o governo não fazia. Enquanto os prefeitos sumiam com as verbas das merendas escolares, a máfia do tráfico distribuía cestas básicas às crianças e famílias da periferia.
Enquanto no governo ninguém era fiel a
ninguém, pois sempre aparecia alguém que oferecia mais, no submundo o que mais
contava era a fidelidade incondicional aos líderes que jamais abandonavam seus
fieis seguidores. Pagavam advogados para eles, tratamentos de saúde no
exterior, documentos falsos para embarcar, fugir... E ainda que algo falhasse,
suas famílias estariam sempre amparadas, usufruíam de um bom seguro de vida
vitalício com apólice verbal. Apesar de tudo ser verbalmente contratado para
não deixar lastros, tudo era confiável, garantido e comprovado por casos e
casos de pessoas que testemunhavam o passado.
Enquanto o governo surrupiava as verbas
destinadas à construção de reservatórios de água e deixava a população na mão,
o poder paralelo distribuía água por caminhões pipa, seguindo um plano de
distribuição perfeito. Sabiam dia e hora em que faltaria água em cada ruela da
cidade e avisavam a todos com antecedência. O povo, cansado de protestar e
economizar, começou até a colaborar com os furtos noturnos às estações e
reservatórios de água estaduais...
A situação foi se agravando com o tempo. As crianças começaram a ser recrutadas pelas organizações criminosas uma
vez que eram deixadas a esmo pelas ruas. Eram recrutadas para as mais diversas
finalidades. As meninas que não sabiam manusear armas geralmente eram
destinadas à prostituição. Na idade de três a quatro anos já serviam para
alguma coisa. As mais velhas, às vezes, precisavam ser drogadas para não se
rebelarem. Seus pais muitas vezes já se drogavam em casa e isso as impedia de
se culparem, afinal, nossos pais são sempre nossos modelos de vida...
Os meninos eram divididos em pequenos e
grandes, bobos e saudáveis, gays e futuros líderes. Os pequenos eram destinados
a operações criminosas onde possuir um corpo pequeno facilitava as coisas. Aos
grandes seria destinado o serviço sujo, eram treinados para serem os futuros
“leões de chácara”. Os bobos, mas saudáveis, eram valiosos na cadeia
internacional de tráfico de órgãos. Valiam muito dinheiro. Os gays eram distribuídos nas festinhas dos
líderes e algumas vezes ficavam cativos por algum deles. Eram conhecidos por
sua fidelidade cega. E os futuros líderes eram os carismáticos, aqueles que
pareciam já nascer sabendo, tinham o DNA do crime nas veias... Desde crianças
eram escolhidos e treinados para desempenharem sua “profissão”. A organização
lhes pagava estudos até a faculdade, os capacitava em tudo o que fosse
necessário, traquejo social, livre acesso às festas da high society e, muitos deles, através de conchavos eram
introduzidos no próprio escalão do governo, em cargos de destaque, e apareciam
na TV pedindo apoio para a aprovação do projeto em questão: A DESCRIMINALIZAÇÃO
DO USO E PORTE DE DROGAS.
E foi assim que o projeto foi aprovado. Com
amplo apoio nacional do povo que pensava: “pior
não pode ficar”. O que o povo não sabia era que sempre pode ficar pior. É a
lei de Murphy.
Após um ano da aprovação do projeto, o
número de jovens viciados aumentou exponencialmente. Muitos desses jovens
passaram da maconha para outras drogas mais pesadas porque o “barato” da
maconha deixara de ser sedutor. PERIGO- era a coisa mais sedutora que existia.
O perigo de se viciar, o perigo de morrer... A droga subia na cabeça da
juventude como um rojão. Quem não consumia sofria bullying nas escolas. Era perseguido, humilhado, não recebia
convites para as festas e os dedos-duros eram
executados à pauladas e chutes pelas gangues das drogas.
Misteriosamente as instituições de polícia e
judiciário absolviam esses criminosos que voltavam impunes para seu habitat para perpetuar o caos.
O governo então, já que não podia competir
com o poder paralelo que era muito mais forte e organizado, decidiu a ele se
aliar. Foi uma rendição tácita. O famoso “vê que cai, deita!” Era visível a
força do poder paralelo. Suas armas eram modernas, de grosso calibre,
derrubavam helicópteros a longa distância! Tinham drones, desde os mais simples
que levavam celulares nos presídios até os mais sofisticados que podiam
destruir satélites! Dinheiro era o que não faltava para eles, mas quem
desviasse algum era punido com a própria morte! Tudo tinha um destino certo.
Não poupavam verbas para capacitar seus membros. Investiam em tecnologia.
Enviavam jovens para as melhores universidades do mundo para desenvolver suas
habilidades e servirem à organização. E nem precisava de FIES (financiamento
estudantil), tudo seria pago em fidelização à organização, futuramente sabiam
que seriam recrutados para provarem na prática suas habilidades.
Foi assim que toda a nação caiu num buraco
negro inexplicável!
O governo passou a ser o “traficante mor”,
“o cabeça” como diziam alguns. Dominava e manipulava o povo através do vício
nas drogas. A população desesperada fazia qualquer coisa por um cartão
magnético BOLSA-DROGA. A fome era
degradante, mas o vício era ainda mais... Na fome o indivíduo levava um tempo
maior para morrer porque ficava resistente a ela. No vício, especialmente
quando era o crack, a morte vinha rapidinho. E o governo ficou “crack” em
estirpar da nova sociedade os jovens rebeldes que a ela não se adaptavam, ou
seja, não queriam se viciar! Só permaneciam vivos os que colaboravam!
O salário deixou de existir. O governo provia o necessário para a sobrevivência e controlava o grau de vício dos cidadãos através de circuitos de
TV e câmeras na internet. Existia um limite de vício que não podia ser ultrapassado para aqueles
que ainda eram úteis ao governo. Para os demais o vício era incentivado
subliminarmente, pois a morte deles pouparia ao governo muitos gastos.
Foi dessa maneira que a sociedade virou um
grande rebanho de ovelhas. Carneirinhos obedientes... E viciados. Ninguém mais
protestava por nada. Só produziam para obter suas rações de droga. Sabiam que
tudo estava dominado e, o que fazer numa situação dessas? Quando quem deveria
defender o povo era justamente aquele que se debandou para o lado da
bandidagem?
O medo era geral, muitas contas estavam
sendo pagas com cabeças cortadas. O livre arbítrio desapareceu. Consciência
lúcida era uma ficção. Degradação era a palavra certa que definia aquele
momento histórico que futuramente seria batizado como a SEGUNDA IDADE DAS TREVAS.
Marisa Prado Sampaio