segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

CRÔNICA DA VIDA REAL - REVEILLON 2010/2011

CRÔNICA DA VIDA REAL - Reveillon 2010-2011

Não tenho problema algum em passar o Réveillon sozinha, mas a Áurea me convidou... Eu fui!
Não gosto de gastar fortunas em ceias de Réveillon, acho um dinheiro jogado fora, porque não como quase nada, não bebo e tenho muita conta para pagar...
Pra mim, tudo depende das pessoas que estão ao nosso redor...

E a Áurea é uma pessoal legal, assim como a Alda, o Zé, a Eliane, o João Victor, e outras pessoas que tive o prazer de conhecer, como a D. Açucena, mãe do Zé, uma senhora de 90 anos que ficou viúva esse ano, sabe administrar muito bem a própria vida, mora sozinha e serve de exemplo pra muita gente... Conheci também a mãe da Eliane, uma senhora muito engraçada que conta muitos “causos”, e dá muitos “bolas-fora”, como eu... Já esqueceu até de colocar a saia e saiu de anágua na rua!!! Faltou falar do Nick e do Guto.

O Nick é cãozinho da Eliane e do João Victor, lulu da pomerânia, tem uma carinha de lobo, lindo e dengoso, só quer carinho e colo, subiu no meu colo e queria me beijar na boca!!!! Eu gosto de beijo na boca, mas não de cachorro! Socorro!!!
O Guto é o cachorrinho do Zé, bravo, anti-social, avança nas visitas... Coitadinho, deve estar com Alzheimer... Ele não era assim... Está velhinho.

A Alda queria colocar eu, que era visita, no quartinho do fundo, e o Guto que era o cachorro na sala, porque ele só parava de latir na sala...
Eu saí da sala e fui pro quarto. Mas o Zé estava lá, perguntou para mim, que era a visita:
_O que você está fazendo aqui?
_ Foi a Alda que me mandou ficar aqui para o Guto ficar na sala...
_Nada disso, pode ficar lá na sala. O Guto vai ficar é trancado.
E lá vou eu lá pra sala de novo...
Só faltava eu virar bolinha de pingue-pongue no Réveillon, né? Tudo a ver... Branco!

Enquanto discutia-se o que fazer com o Guto, eu via pedaços de novela, comia avelãs quebradas com um amassador de dente de alho... A Alda tem uma criatividade!!! Funcionou alguns minutos, até que o troço se quebrou e a avelã voou longe, caiu no chão e nós ficamos preocupados porque o Guto podia pegá-la e se engasgar...

Já pensou? Guto engasgado e nós correndo para o veterinário em pleno Réveillon? Pelo menos assim ele ia parar de latir... Achei melhor deixar as avelãs de lado e ver a novela... Essa Passione em que estão matando todos os personagens. O autor inventa tanto, acaba num beco sem saída, não sabe o que faz com o personagem e mata! Mas ontem ninguém matou ninguém... Na novela! Todos queriam casar... Eu até comentei com a Áurea:
-Na novela os homens estão doidos para casar, mas na vida real... Só em novela mesmo!

Eu levei um panetone da Cacau Show, recheado com trufas de maracujá. A Alda, irmã da Áurea fez um chester delicioso! Eu nem me lembrava de que chester era assim tão gostoso! É... O peru não se cuidou, tomaram o lugar dele! A Áurea ficava insistindo para eu comer as batatas que recheavam o chester. De vez em quando ela insiste com umas coisas sem sentido... Entre chester e batata, eu fico com o chester, meu estômago é pequeno e batatas eu como todo dia!

Discussão terminada, pegamos os pratos e fomos para a casa da Eliane que mora no andar de cima, porque o Guto, o cachorro, ficaria melhor sozinho com o apartamento todo pra ele, e lá embaixo na churrasqueira tínhamos medo de que chovesse. Então, por causa do cachorro, saímos todos levando chester, farofas, saladas, frutas, bebidas, louças e talheres etc... Rumo ao elevador.

Mas o Réveillon foi muito legal, cada um levou um prato, exceto eu, fui dispensada!
A Áurea me conhece há trinta anos, sabe que minhas comidas raramente ficam boas... Uma vez eu levei um pão que fiz e dei pra a Altina (empregada da Áurea), a Áurea não quis nem experimentar, e a Altina me disse que aquele pão, se caísse na cabeça de um, matava... A Altina morreu, e o marido dela também, mas não foi por causa do pão não! Foi bem depois de comer o pão...

O João Victor é filho da Eliane, ele é um amor! Tem nove anos, é super simpático, sociável, gente fina mesmo, como a mãe! O pai dele eu não conheço, eles são separados, só sei que o pai não vê o filho com freqüência e deu uma bateria própria para criança de 3 anos, para o menino já que tem 9 anos!
Talvez ele tenha mandado a secretária comprar e nem olhou o presente... Tem pai que é assim mesmo...
...Pior fui eu que dei chocolate pra minha cunhada diabética... Se a pessoa é maldosa, pensa que a gente quer matar... Bom, nem sempre a gente acerta... Mas, às vezes, eu acho que não acerto uma!

Nós comemos, conversamos, tiramos fotos... Vimos os fogos. Os fogos de São Paulo não são como os fogos do Rio em que o governo gasta o dinheiro do povo pra valer e queima mesmo! O Zé falou que aqueles fogos que nós vimos são fruto da rixa entre duas favelas. Cada uma quer soltar mais fogos que a outra. É como se fosse um diálogo de fogos, muito lindo!

A primeira pessoa pra quem desejei Feliz Ano Novo foi a Áurea, e achei bom. Acho que isso talvez tenha um significado especial pra mim e pra ela no decorrer do ano... Como eu disse no início, o Réveillon vale pelas pessoas que estão ao nosso redor, e a Áurea é uma pessoa amiga. Com ela eu posso ser quem eu sou, falar minhas besteiras, contar minhas aventuras, compartilhar meus medos, minhas conquistas... São pouquíssimas as pessoas que nos permitem ser quem somos de verdade. Na maioria do tempo somos o que os outros esperam que sejamos...

Mas voltando aos fogos... Eu não tiro mais fotos de fogos. Porque a gente troca a realidade que é tão emocionante, brilhante e ensurdecedora por uma foto apagadinha que não faz barulho e não tem graça! Há certas coisas que é melhor viver do que tentar aprisionar em uma foto!

Filmei um Papai Noel que o João Victor tinha, ele cantava musiquinha de Natal... Não tinha nada a ver. Era Réveillon. Mas e daí? Tudo tem que fazer sentido na vida?Já que o Zé estava com um gorrinho vermelho de Papai Noel, por que eu não podia filmar o Papai Noel? Por falar em Zé, ele me fez passar uma... Quando ele me apresentou para a mãe dele, ele disse:

- Essa aqui é a Marisa, pra quem eu emprestei o dinheiro, e ela ainda não me pagou. Mas se Deus quiser em 2011 ela vai me pagar... (Se virou pra mim) Não vai?
- !!!! Eu fiquei sem palavras... (Encontrei alguém que fala mais besteiras que eu....)

Depois dos cumprimentos o João Victor foi para o quarto tentar dormir e não conseguiu. Ao invés de chorar, se jogar no chão, bater o pé, esquartejar o pai e a mãe na frente das visitas como muitas crianças fazem... Ele apareceu na sala educadamente em seu pijaminha verde, esperou a mãe dele perguntar:
- Você não ia dormir?
- Eu tentei, mas os “vizinhos” não deixam, estão falando muito alto...

Que lindo! Os vizinhos éramos nós, na sala, que é vizinha ao quarto dele. Ele nos apontava discretamente com os dedinhos por detrás da cabeça para a mãe dele entender e sem nos ofender...
Decididamente, quem tem um filho desses já é RICO, não precisa de mais nada. O João Victor é uma criança de mente tranqüila, daquelas pessoas que estão sempre de bem com a vida, não importa o que aconteça... Adormeceu sentado no sofá da sala...

Eu e a Áurea estávamos de branco. Meu vestido era lindo, todo bordado com miçangas brancas. Ele não servia mais pra Áurea e ela me deu. O forro estava meio ruim, eu comprei meio metro de cetim branco e fiz outro forro. Ser pequena tem suas vantagens! O vestido estava um pouco grande pra mim, mas eu coloquei um cinto e ficou melhor. Um cinto que comprei no brechó do Santa Marta. O cinto e meu sapato eram pretos. O sapato era de bico de verniz e salto alto, da Corello, muito chique, mas não era meu número. Eu calço 33/34, o sapato era 35. Era da minha prima Maristela, apertava o pé dela, ela me deu. Eu achei tão bonito, enfiei uns pedaços de papel higiênico bem socadinho no bico e mandei ver!

Passei uns maus bocados no caminho. Saíram os saltinhos de borracha da ponta do salto fino. Eu tinha de me equilibrar em cima de um preguinho. Pra quem fez cirurgia no joelho há dois meses... Nessas alturas eu já havia percebido que não poderia beber. Eu mal conseguia me equilibrar sóbria, que diria bêbada!

Logo que cheguei, ao subir as escadas da entrada do prédio, gritei:
- Áurea!!!! Me espera!
Ela perguntou: - O que foi?
Eu disse: - Meu sapato saiu do pé e ficou no degrau de baixo...

Bom, eu disfarcei bem, lógico! Todo mundo falava que eu estava muito chique... Não sabiam que o vestido era da Áurea, o sapato da Maristela, o cinto do brechó e a bolsa... A bolsa era uma embalagem de um presente que eu havia ganhado. Uma embalagem de papelão em formato de uma bolsinha... Uma graça! Eu achei tão bonita que resolvi cobrir de tecido e fazer uma alcinha de crochê para usar como uma bolsa de verdade! A mãe da Maristela, tia Adely também gosta de fazer bolsinhas...

O problema da bolsa é que, por ser de papelão, não se pode colocar coisa pesada dentro e eu coloquei meu celular, afinal era Réveillon, a Betânia podia me ligar, e a máquina fotográfica para registrar os momentos maravilhosos que iríamos passar... Eu tinha medo de que a bolsa se arrebentasse e minhas coisas fossem para o chão. Foi um Réveillon onde eu pratiquei muito o equilíbrio e a distribuição de peso, literalmente.

Eu e a Áurea... A gente ria só de se olhar, sabíamos do sapato, da bolsa, do vestido... Ah! Agora ela emagreceu, e eu disse que se ela quisesse o vestido de volta eu dava... Depois vou levar o vestido lá para ela experimentar...
Houve um momento em que contaram uma história de alguém que estava velho e um pouco gagá e saiu na rua com um sapato que não era dele, e choveu, e o sapato fazia “ploc, ploc ploc"... e todo mundo ria! A Áurea olhou pra mim e nós pensamos a mesma coisa instantaneamente... kA, kA, kA, kA, kA... Mas não era pela história que estávamos ouvindo... Era pela realidade!

Eu pensava: - Tomara que não chova! Senão meu sapato vai fazer “ploc-ploc-ploc” e minha bolsa de papelão... Só Deus sabe o que pode acontecer!

Bom, a festa acabou, perguntaram pra mim se eu podia ajudar a carregar os pratos de volta para o apartamento da Alda e eu sem pestanejar respondi:
- Eu não posso carregar nada!!!!!
A última coisa que eu desejava ser na vida é equilibrista de circo e me estatelar no chão com um monte de prato quebrado... Desculpem, normalmente eu sou solícita e educada, ainda mais na casa dos outros...

A Áurea me compreendeu, ela sabia que eu tinha dificuldade para andar em cima de pregos e ainda tinha de usar uma das mãos para segurar a bolsa com a ajuda do sovaco... Disfarcei e fui pro elevador. Desci. Sentei-me no sofá da entrada, como quem senta em uma privada, aliviada! Enquanto isso os outros desciam carregados de pratos e tigelas...

A Alda queria que eu levasse o panetone que sobrou, mas nem o panetone eu queria carregar! O João Victor gostou do panetone e eu já havia tomado um porre de panetone nesse final de ano.

Quem mora sozinho é assim! Toma porre de panetone, de chester, de peru, de frango assado, de miojo, de pipoca... Até de brócolis, de xuxu, de beterraba... tudo o que você possa imaginar... Vida de quem mora sozinho é um porre... Tudo dura uma eternidade! E eu então, que gosto de aproveitar tudo... É suco de cenoura, é sopa de cenoura, é bolo de cenoura, é cenoura no sanduíche, é cenoura na omelete... Até não ter mais onde enfiar a cenoura! As pessoas pensam que estou bronzeada de sol, mas essa cor é da cenoura!

A festa acabou e fomos embora. Consegui ler o pensamento do porteiro:
_ Que fogo hein!
Com certeza, pensou que eu e a Áurea estávamos bêbadas, porque a gente ria até não poder mais! Do nada... Eu me agarrei aos braços dela, mal conseguia andar, teve uma hora que quase nós duas fomos para o chão! O carro estava do outro lado da rua e a Áurea falou:
- Marisa, se vier um carro você tem de correr!
- Se vier um carro eu vou é morrer, não consigo andar nem no plaino, quanto mais correr com esse salto nessa ladeira!!!!

Mulher vaidosa é fogo, né? Morre, mas não desce do salto!
Mas... Quer saber?
Eu teria morrido BEM FELIZ !!!! Rindo!

Marisa 2010/2011

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