quinta-feira, 8 de agosto de 2013

A VOLTA DE CAPITU


A VOLTA DE CAPITU (Na voz de D. Casmurro)

Este texto me foi inspirado após o encontro literário que fizemos com Aldina Valeira, em 07.08.2013, estudando a obra de Machado de Assis, Dom Casmurro, especialmente no que tange ao trecho abaixo e também porque acredito que “a morte não é a maior perda na vida. A maior perda na vida é aquilo que morre em nós enquanto vivemos.” (Frase atribuída a Pablo Picasso e também a Norman Cuisins)


Segue o texto inspirador de Machado de Assis:

 “ ...um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo. O que aqui está é, mal comparando, semelhante à pintura que se põe na barba e nos cabelos, e que apenas conserva o hábito externo, como se diz nas autópsias; o interno não agüenta tinta. Uma certidão que me desse vinte anos de idade poderia enganar os estranhos, como todos os documentos falsos, mas não a mim.”

A VOLTA DE CAPITU (Na voz de D. Casmurro)

     Apareceu-me em noite escura, das profundezas do nada, o espírito de Capitu...
     Não mais dissimulada, que lá de cima não se simula nada...
     Imagem de santa com os braços abertos...
     Não mais de olhar oblíquo, que lá em cima o caminho é certo...
     Irradiando luz sobre mim!
     Olhar transparente de quem é consciente...
     De quem já sabe quem se é...
     Não tinha lágrimas de saudade,
     Não tinha súplicas de perdão,
     Muito menos indícios de culpa.
     Só tinha ela nela mesma!

     Eu a amava e se não fosse pela opinião da sociedade, não colocaria tanta tinta na realidade, viajando para a Suíça, pintando um quadro que não existia, mentindo ao meu coração.
     Diante de Capitu compreendi que não enganei ao leitor, enganei a mim mesmo!  Percebi que nunca houve defunto. Se não havia mortos... Todos eles me perseguiriam para sempre, onde quer que eu estivesse...

     Ajoelhei-me e em prantos e gritei:
     _ Perdoa-me Capitu! Eu estava morto e não sabia...

A “causa mortis” não poderia ser outra:  A falta que eu fazia a mim mesmo!

     E mais uma vez olhei para ela:
    _ Perdoa-me Capitu! Eu não enganei aos leitores, enganei a mim mesmo...

Marisa Prado Sampaio




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