MORTE EM VIDA
É uma morte da qual muitos nem se dão conta porque não tem velório, nem enterro…
Uma morte lenta, à conta gotas, vai tomando conta da pessoa aos poucos. ..
É triste pra quem morre e pra quem assiste…
Diferentemente de uma morte abrupta em que você sofre um baque, celebra o luto e processa o enterro, na morte em vida o defunto fica vagando... Pelos seus sonhos, sua realidade. E não há como enterrar a vida, nem o que se confunde com ela…
É como se esquartejássemos o ser em vida. Morte por partes. Alguns pedaços estão vivos, outros mortos…
É uma esperança descabida. O que morreu não vai voltar.
É dolorido assistir a morte em câmera lenta. É quase um sadismo de Deus. A dor lenta é mais intensa.
Arranque a unha de sopetão.
Arranque a unha devagarinho …
Devagarinho nos damos conta de que a morte está nos assombrando. E essa consciência dói…
Na verdade, apavora!
Não relacionamos nossas mudanças de humor e atitudes com essa morte lenta…
Num mecanismo de defesa nos vestimos de Pollyana, colocamos nossos óculos cor de rosa e vemos a vida colorida!!!
Essa mãe não é minha.
Onde está a minha mãe?
Aquela mulher que não parava um minuto, cheia de vida, cuidando de todos…
Guardava meu prato no forno, não esquecia de ninguém, só dela…
Aquela mulher que paparicava meu pai. Cozinhava tudo o que ele queria, do jeito que ele queria. Tão afetiva, tão carinhosa…
Não.
Essa não é a minha mãe. Já falei.
Está inerte, nem se mexe, sem expressão, sem palavras…
Parece que foi de repente, mas na verdade a mudança foi lenta, interior, imperceptível.
A materialização no corpo é só a gota d' água. A manifestação.
A última etapa do que já acontecia no mundo sutil.
A gente vai criando a própria morte durante a vida.
Se percebêssemos criaríamos algo menos doloroso para nós e para os outros.
Eu penso na morte todos os dias, para valorizar a vida. Para que a consciência da minha mortalidade se instale em mim como um antivírus.
Sei que a morte é um mistério, e muito do que penso são suposições.
Uma coisa é certa: A morte tem seu lado bom. Ela nos iguala. Talvez seja a única certeza da vida. E está nas mãos de Deus o dia e a hora de nossa morte.
Acho que Deus sabe o que faz.
Ele deve ter os motivos dele para torturar a gente com uma morte em vida…
Mãe! Você está me ouvindo?
Mãe! Olha pra mim!
Mãe! Eu sei que você tem uma fonte inesgotável de vida interior…
Vejo pessoas andando, comendo, falando… coisas que você não faz. Essas pessoas não têm um décimo da sua luminosidade interior!!!
Mas isso não muda a minha dor. É como se a luz estivesse aprisionada, encarcerada…
Mãe, você ainda não respondeu a todas as perguntas que eu queria fazer…
Eu ainda não a levei pra viajar só comigo!
Tantas coisas ficaram pela metade!!!
Aquela toalha em ponto cruz…
Aquela malha cinza de tricô…
Aquele vaso de cerâmica…
Aquela tela em branco …
As tintas secaram,
Os pincéis enrijeceram!
Seus neurônios enrijeceram…
As placas de proteínas não deixam os músculos obedecerem os comandos do cérebro…
Está tudo dominado!
Quando a gente não assume o que é nosso, abrimos caminho para que algo se aposse de nós e tome nosso lugar…
A doença se apossou da minha mãe. Sei que ela não vai voltar a ser o que era, eu é que tenho de lidar com a minha dor…
Eu é que tenho de descobrir o que ela está tentando me dizer com aqueles olhos marejados, com aquela boca contorcida que não sei se é dor ou sorriso mal sucedido…
O meu alívio é que você dorme bastante mãe!
E nos sonhos tudo é perfeito, tudo é possível.
Nos sonhos eu sei que você dança, pinta suas telas, termina seus bordados, suas costuras…
Nos sonhos você corre atrás de seus filhos que nunca cresceram…
Nos sonhos você faz muitas guloseimas…
Você se olha no espelho e se acha jovem e linda!!!
Me lembro da sua resposta quando eu perguntava:
_ Como é ficar velha mãe?
_ Não sei, quando eu ficar velha eu lhe conto!
Nem precisa contar mais mãe
Já sei…
Ficar velho é uma MERDA!
Marisa 2024

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