O REI DA EMBROMAÇÃO
O professor abriu a aula num lindo terno bege, ou branco encardido, não sei, perguntando aos alunos se não estava bonito...
Criou grandes expectativas dizendo que o traje diferenciado dentre todos os professores era proposital... teria a ver com a aula do dia...
E todos alunos pensaram: “ puxa, ele planejou a aula, pensou até no traje que iria vestir...!”
Era trinta de outubro de 2001 quando o professor de português, Roberto, debateu com seus alunos da turma 91 de Direito, o sistema de ensino, primeiramente de forma abrangente, depois de forma restrita , na faculdade UNIB, e finalmente de forma singular, considerando o ideal da postura do aluno perante esse ensino.
Como se fazia na dialética dos Antigos, duvidou-se do papel dos sujeitos da relação de ensino e aprendizado: seriam eles como na relação jurídica, ativo e passivo?
Além de tudo o que foi falado em classe, minha percepção captou mensagens subliminares, que iriam além, muito além, de tudo o que foi dito e redito em aula, e o que viria a demonstrar como é possível, partindo de verdades previamente aceitas pela maioria, manipular um grupo, uma classe, ou um povo, objetivando esconder as próprias falhas, as próprias fraquezas, ou desviando a atenção dos fatos mais importantes, e obtendo assim vantagens e atingindo objetivos que a maioria não percebe.
Os alunos aguardavam ansiosamente a chegada do professor, pois estavam impacientes para saber as notas das provas do bimestre passado, notas essas que todos os professores há muito já haviam dado, mas o Rei da Embromação, logicamente pra fazer jus ao codinome que lhe foi dado por uma de suas amigas, ultrapassava ao máximo os prazos estabelecidos pela faculdade, para entregar aos alunos as notas tão esperadas.
Acredito que os professores, na relação de ensino e aprendizado, estão numa posição de maior experiência, pois já percorreram todos os caminhos pelos quais hoje passam os alunos. Justamente por isso, têm por função, detectar as falhas no processo de aprendizado e apontá-las aos alunos e a si mesmos para que essas sejam sanadas e o processo de ensino atinja seu objetivo: o aprendizado.
Isso foi o que o Roberto fez na última aula. ( Quando falo da última aula, na realidade trata-se de um bloco de duas aulas seguidas).
Após algumas colocações sobre o ensino, foi feita aos alunos a pergunta:“ Por que você decidiu fazer DIREITO?”
Eu, como aluna tenho a minha resposta:
- Porque sou uma pessoa muito crítica, não gosto de injustiças. Gosto de ler, de escrever, de estudar; necessito de conhecimentos nessa área em meu trabalho, a graduação irá me favorecer profissionalmente; e é também uma profissão que você pode exercer como autônomo, montar um escritório em casa, fazendo seu próprio horário, de acordo com suas possibilidades. É uma ótima alternativa no mundo atual em que cada vez mais o vínculo empregatício é rompido.
E ainda que você não exerça a profissão, o Direito faz parte da cultura, pois como um povo poderá falar de cultura sem conhecer os seus direitos?
Eu, particularmente, sou apaixonada pelo Direito do Consumidor, e pela Advocacia Comercial Preventiva; e gostaria também de trabalhar em algo como Advocacia Filantrópica, em benefício daqueles que não dispõem de recursos para custear um processo judicial.
Mas existe um outro motivo, de que ainda não falei, é a “realização de um sonho”.
Já me enveredei por três faculdades e creio que agora encontrei o lugar e o ramo com que me identifico realmente.
Tempo perdido?
Não, não acredito que todo o trajeto percorrido tenha sido tempo ou dinheiro perdido. Em minha opinião nada do que se aprende é perdido.
Se você gasta dinheiro, ou tempo, nos Shoppings da vida com coisas “fungíveis”, isso sim, pra mim é perdido para sempre, mas se você estuda, adquire conhecimento pelo estudo, ou por viagens, ou pela simples curiosidade de ir a fundo, isso é um bem “infungível” (não pode ser substituído por outro de mesma qualidade, espécie ou quantidade), e não tem preço mensurável, por tão valioso que é.
O professor comentou que muitos alunos se comportam como sujeitos passivos, esperando dos professores, como se esses fossem dotados do dom da magia, e possuidores de varinhas milagrosas que lhes coloquem cérebro a dentro todo o conhecimento de que necessitem.
O professor nos pediu para NÃO ACREDITARMOS NO ENSINO, pois a gente aprende sozinho: “ O ensino está até o segundo grau. O resto é por sua conta.”
O que estou escrevendo agora é a maior prova de que isso não é verdade.
Eu estou , pelo menos, tentando seguir o modelo canônico. E não aprendi isso no primeiro e nem no segundo grau.
Certamente concordo que o aluno não pode ter uma postura de simples aceitação com relação ao ensino, ele tem sempre que ir além e buscar novos conhecimentos. Mas me parece que um professor que não acredita no ensino não deveria ser professor, pois assim sendo, a profissão dele é inútil e ele está recebendo salário para fazer algo que não lhe dá sentido algum. Portanto, na minha concepção o professor tem função sim e deve exercê-la, embora a recompensa que receba muitas vezes seja irrisória, se comparada aos esforços dispendidos.
O fato é que ninguém obriga ninguém a ser professor. E como o próprio professor nos diz, deve-se assumir responsabilidades pelas escolhas que foram feitas.
Os indivíduos deveriam aprender nas escolas que é possível ser feliz, a despeito do que a vida lá fora lhes diz.
Como diz o Roberto Shinyashiki, O SUCESSO É SER FELIZ.
Deveríamos saber que é possível fazer o que se gosta e ser feliz.
As pessoas deveriam ser proibidas de trabalhar naquilo que não lhes traz felicidade:
“ Artigo 1º da Constituição Federal : É absolutamente proibido estudar ou exercer profissão em atividade na qual não se obtenha prazer, satisfação, ou felicidade, sob pena de sofrer as conseqüências da INFELICIDADE que afeta o bem comum e contamina os membros da sociedade.”
A avaliação dos funcionários de uma empresa deveria ser feita através de uma maquininha ( o felicidômetro) que medisse o grau de felicidade do funcionário. A produtividade seria conseqüente.
As pessoas geralmente fazem escolhas erradamente, influenciadas por vários fatores. Muitas vezes buscam prestígio, dinheiro, o exercício do poder. Quem assistiu a aula do professor Carlos e leu o texto sobre o sociólogo Merton, que fala da anomia social com suas metas sociais impossíveis, sabe do que eu estou falando.
Muitas vezes somos também desestimulados pela família, pelos amigos, e nos sentimos inferiorizados e incapazes de perseguir os nossos sonhos.
Agora sou eu quem pergunta:
“Professor Roberto : - Por que você decidiu ser professor?”
Não foi para chamar seus alunos por termos como : “ seus burros”, “cambada”, “ medíocres”, ou usar frases como : “ O cérebro de vocês não alcança coisa melhor que isso?”
A intenção pode ter sido boa dentro do contexto, talvez mexer com o nosso orgulho próprio, ou incitar-nos a falar.
Essa intenção ficou clara depois que o mestre nos disse que confronto não é briga, e que vivemos a vida toda nos recusando a fazer confrontos, mostrando, assim, que precisamos assumir responsabilidades e externar nossas opiniões. Essa é uma das grandes verdades compartilhada por todos...!
Refleti:
Será que alguém pode cobrar responsabilidade dos outros, se não cumpre as suas?
Pois a responsabilidade maior do professor naquele momento, véspera de fechar o bimestre, seria apresentar as provas, verificar dentre os alunos as maiores dificuldades, e fazer uma recapitulação de tudo o que foi dado, com novos exemplos, ou textos, preparando a classe para as provas que logo a seguir viriam.
Mas o discurso do Rei da Embromação deu certo.
Alguns alunos começaram a falar, e a mostrar seu descontentamento com o sistema de ensino da faculdade.
A essa altura já se havia passado a primeira aula inteira, e ele repetiu a mesma idéia mais de vinte vezes, com palavras diferentes, em tons inflamados e discursivos.
Refleti:
Pra quem dizia, no início do ano, que sua cadeira tinha pouquíssimas aulas, e que a matéria , dada a sua importância na profissão do advogado, deveria ter ,no mínimo , o dobro do número de aulas, essa redundância e perda de tempo não pareciam coerentes....
O que me fez sentir ainda mais que o tempo da aula estava sendo mal utilizado, foi que a discussão foi ampliada para assuntos que não tinham muita relação com o tema.
Ligados por “inimigos” comuns, o debate foi se inflamando, e extrapolando os limites.
Não vamos citar nomes para não comprometer inocentes.
Já dizia minha mãe: “Roupa suja se lava em casa.” Apesar de que muitos acham que roupa suja se lava em público.
Pra mim, a questão não é “em casa”, ou “em público”.
Minha opinião é de que a questão que se impõe é COM QUEM se discute o problema. Essa frase significa que devemos acertar nossas desavenças com a pessoa em questão e não com terceiros.
Aí vem o professor Roberto e diz novamente:
“ É preciso ter responsabilidades”, “ é preciso ter opinião e se manifestar”.
Vocês podem achar que estou repetindo muitas frases, porém se eu as repetisse aqui por tantas vezes quantas foram proferidas naquele dia, esse texto não teria fim...!
E já que o caminho foi sutilmente aberto e favorecido pelo professor, alguns alunos se sentiram em casa para falar.
Aproveitaram a oportunidade, uma vez que estando em relação de subordinação muitas vezes sentem-se fracos para confrontar com os mais fortes, e naquela aula, aparentemente não havia hierarquia entre professor e aluno.
E aqui estou eu, manifestando minha opinião, e certamente me confrontando com um professor que me criticou por ser INERTE, daqueles alunos que precisam ser empurrados para passar de ano!!!!! Corajosa eu hein....!!!!
O que todo professor se esquece, é de que ele, por ter muitos alunos, pode não conhecê-los muito bem, porém a recíproca não é verdadeira....
Felizmente, eu sei muito bem quem sou, e ninguém melhor do que eu para me definir.
A segunda aula já havia começado e fiquei espantada em perceber que ninguém percebia o que eu estava percebendo:
Era impressão minha, ou ele não havia preparado a aula e estava embromando?
Comentei isso com o colega do lado ( Josevaldo), não sei se o professor me ouviu, pois eu estava sentada na fila do gargarejo, e o que aconteceu foi que, logo a seguir, ele literalmente perguntou a classe:
“ Vocês acham que para uma classe omissa o professor se preocupa em preparar a aula?”
E para completar:
“ Para um público ignorante, qualquer discurso serve”
“ Para um bando de medíocres qualquer professor serve.”
A minha conclusão foi:
- Ou eu sou medíocre, ou ele não serve pra mim.
Só posso dizer a vocês que eu não sou medíocre.
Decidi sair da sala para respirar um ar.
.... Voltei!
E só peguei a despedida do Rei da Embromação:
“ Desculpa por ter tomado o tempo de vocês com um discurso tão ridículo.”
....!
A sensação que tive foi como assistir ao Fantástico da Rede Globo, quando você fica super curioso com as vinhetas, pensa que eles vão falar de algo realmente fantástico e depois... tudo é tão superficial, não acrescenta nada substancioso, é só embromação e manipulação... E só depois percebemos que gastamos nosso tempo precioso dando ibope para eles.
Ou então aquele programa : VOCÊ DECIDE:
“ Se é a favor da biboca da parafuseta ligue para OBOBO-OBOBO,
mas se for contra a biboca da parafuseta ligue para OBOBA_OBOBA.”
Aí, muitos concluem:
“ Como a Globo é legal! !!! A nossa opinião é importante para ela!!!”
E ainda dormem felizes dizendo:
“ Olha lá!!! A minha opinião venceu!!”
Contudo, não posso dizer que as duas últimas aulas do professor Roberto tenham sido em vão!
E aqui, quero dizer realmente PROFESSOR, e não Rei da Embromação, porque por meios “lícitos” ou “ilícitos”, eu aprendi, e cá estou, assumindo posição, externando minha opinião, e provando que na relação entre professor e aluno, o professor também pode aprender, na medida em que conhece melhor os seus alunos e se coloca na posição deles.
A posição de sujeito ativo e passivo não é fixa, elas devem ser trocadas para melhor compreensão de ambas as partes, não há privilégios para nenhuma das partes.
OBS-
No final daquela “aula” o professor pediu aos alunos que fizessem uma redação sobre a aula, colocando em seu conteúdo tudo o que haviam aprendido até aquele dia , observando o modelo canônico, a coesão textual e as regras gramaticais.
Na aula seguinte apenas dois alunos trouxeram as redações.
O professor sem lê-las elogiou os alunos, e logo a seguir começou a ler a minha redação( O Rei da Embromação), pois eu era um dos alunos que fizera a redação.
A medida que foi lendo, foi ficando vermelho... Ao final da redação a classe bateu palmas.
Ele pediu que alguns alunos se manifestassem verbalmente.
A maioria dos “depoimentos” corroboraram meus pensamentos e idéias, apenas dois alunos ficaram penalizados pela situação vexatória em que ficou o professor, por coincidência esses alunos eram os mesmos que precisavam de nota para passar de ano...
O professor olhou para mim e disse, perante a todos, que eu teria DEZ pela redação e estaria dispensada da prova seguinte....
Mas dias antes ele dissera que eu era daqueles alunos que precisavam ser empurrados para passar de ano, eu só quis mostrar que eu sabia fazer redação!
Outros alunos vieram me pedir cópia da redação. Tirei umas três cópias , e pedi pra se virarem .
Até um dia antes da prova, minha nota não havia saído no terminal, o que indicava que eu estaria de exame....
Conclusão: eu não tirei DEZ, tirei oito, mas também não fiquei de exame.,
E por coincidência ou não, o professor no ano seguinte não estava mais no quadro docente da UNIB.
Posteriormente soube que minha redação chegou à direção da Faculdade atra-vés de cópias que circularam por toda a faculdade.
Marisa Prado Sampaio

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